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Entrevista - Cláudio Oliveira Silva

“TODOS GANHAM COM A AVALIAÇÃO DO CICLO DE VIDA”

Reportagem: Silvério Rocha,
Revista Prisma ed.48, agosto de 2013
Fotos: Patrícia Belfort
        

Profissional competente e persistente nas ideias e projetos em que está envolvido, o engenheiro Cláudio Oliveira Silva, gerente da Área de Inovação e Sustentabilidade da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), usou essas características para “vender” internamente na associação o projeto de  Avaliação de Ciclo de Vida modular (ACV-m) do setor de blocos de concreto. Representante da ABCP no Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS), que criou a ACV, Silva diz que esse projeto é pioneiro e inovador, por ser o primeiro a fazer a avaliação em grande escala do impacto da produção setorial.

Segundo ele, os seus resultados servirão para que os fabricantes de blocos e pisos de concreto possam avaliar o impacto ambiental na fabricação desses produtos e obter melhorias de gestão e competitividade, a partir desses indicadores. “Essa avaliação permitirá ao setor de blocos e pisos intertravados de concreto mostrar transparência ao mercado, melhorar seus eventuais pontos falhos e preparar-se para as exigências ambientais cada vez maiores da sociedade e dos contratantes.” Silva é mestre em engenharia na área de materiais de construção pela Escola Politécnica da USP, pela qual também é pós-graduado em Administração Industrial. Formou-se engenheiro civil pela Universidade de Guarulhos, com especialização em Marketing pela ESPM.

Qual foi a origem desse projeto de Avaliação de Ciclo de Vida Modular de blocos e pisos intertravados de concreto?

Em 2010, criamos, dentro da área de indústria da ABCP, um setor específico voltado para inovação e sustentabilidade. Começamos com alguns projetos, como o de reaproveitamento de sacos de cimento. A partir de 2011, propus o projeto de avaliação do ciclo de vida de blocos e pisos intertravados de concreto, devido ao fato de estar participando do CBCS, que já havia desenvolvido metodologia para essa avaliação; é um projeto do CBCS que eu encampei dentro da ABCP. Esse é um projeto que visa a mensurar o impacto ambiental na fabricação desses produtos de concreto, e ele é pioneiro, nessa escala macro, dentro da construção civil brasileira. Porque, se compararmos com o que a indústria de blocos cerâmicos havia feito, por intermédio da Anicer, é algo muito diferente, porque eles mediram, pontualmente e com base em dados de literatura, o impacto ambiental da produção dos blocos cerâmicos até para compará-lo com o do bloco de concreto. Já nós estamos efetivamente medindo o impacto ambiental da produção do bloco de concreto em 43 indústrias do país, ou seja, vamos verificar na prática, na produção, em todas as suas etapas, qual é esse impacto.

E quais foram as etapas percorridas para definir o projeto?

Participo do CBCS desde 2008, como representante da ABCP, e dentro dele me interessei pelo comitê de materiais, coordenado pelo professor da Poli-USP Vanderley John. Nesse comitê, o CBCS desenvolveu uma ferramenta, chamada de “seis passos”, com os critérios mínimos para a escolha de um fornecedor. Esses seis passos incluem, por exemplo, formalidade, se a empresa tem CNPJ; se possui licença ambiental em dia, não pode estar no cadastro de empresas com trabalho escravo, não pode usar trabalho infantil e precisa cumprir norma técnica. São requisitos básicos que o fornecedor precisa atender. Isto ajuda a separar os bons dos maus fornecedores, a partir de critérios mínimos. Uma segunda ferramenta que discutimos no CBCS é sobre como fazer, de forma bem prática, uma avaliação do impacto ambiental do produto, que é a avaliação do ciclo de vida, com uma condicionante: uma avaliação desse tipo pode ser muito complexa, e cara. O que o CBCS defendeu é que essa avaliação poderia ser feita por etapas, com menor número de empresas e custo também menor. Começamos então, na ABCP, a apoiar essa iniciativa, de fazer a avaliação de forma mais racional e modular, pela qual pode-se crescer em escala e em complexidade, conforme o segmento. Coloquei então uma proposta de iniciar a avaliação pelo setor

de blocos para alvenaria e pavimentação. Defendi a ideia internamente no CBCS, entre os associados, que gostaram do projeto e começamos a fomentar isso, para criar o primeiro modelo. Na verdade, é um modelo que servirá também para qualquer outro setor de materiais de construção, claro que com algumas adaptações para o setor específico.

Quando isso foi realizado?

Isso foi em 2012, durante o qual fizemos todo um trabalho de formatação dos questionários, das ferramentas iniciais, de treinamento para os fabricantes; fizemos um piloto com três fabricantes do estado de São Paulo. E, neste ano, fizemos a parceria com a BlocoBrasil e a ideia é estender esse projeto para todos os fabricantes associados da entidade. Provavelmente, neste primeiro momento, o projeto não atingirá todos os associados, mas uma boa parcela deles. Já temos a confirmação de 43 fabricantes, de diversos estados (SP, RJ, RS, SC, Centro-Oeste).

Qual é a meta do projeto?

A ideia é que tenhamos parâmetros não apenas regionais, mas avaliações que permitam identificar as diferenças de nível entre os fabricantes, nacionalmente e por região. Por isso é um trabalho inédito, pioneiro – desta maneira, nunca foi feito no Brasil. Isto será importante para o setor, porque os fabricantes poderão verificar as boas práticas, como alguns fabricantes conseguem atingir baixos índices de impacto ambiental e comparar com seus próprios índices. Entre eles, os fabricantes que têm menor geração de resíduos, menor consumo de energia elétrica,de água, de combustível, por exemplo, e como conseguem obter isso. É claro que isso envolve equipamentos, procedimentos de produção e gestão. Pois o que estamos avaliando no ciclo de vida? Os pesquisadores querem ver quanto de CO2 é gerado no processo de fabricação de blocos de concreto, quanto de energia, elétrica e de combustíveis, de água e quanto de resíduo é gerado e de insumos são consumidos no processo, ou seja, quanto de recursos naturais são gastos.

"A AVALIAÇÃO DO CICLO DE VIDA PERMITIRÁ VER QUANTO DE CO2 É GERADO NO PROCESSO, QUAL O CONSUMO DE INSUMOS E QUANTO RESÍDUO É GERADO"

Detalhe um pouco mais essa avaliação.

Quando falo de insumos, indiretamente falo de consumo de energia, pois ao comprar areia, o que é mais sustentável: adquirir de um fornecedor que está a 10 km ou a 100 km? Se fizermos avaliação apenas do preço da matéria-prima, pode ser que escolha aquele fornecedor que está a 100 km. Mas se fizer avaliação do impacto ambiental, com certeza escolherei o que está a 10 km, porque a fábrica terá custo ambiental muito menor, por causa do transporte. Então começa a mudar a ótica sob a qual se faz a avaliação e o critério de escolha do empresário para definir seu fornecedor de matéria-prima. Claro que essa avaliação também deve ser técnica, se aquela matéria-prima é adequada ao que se quer produzir.

É possível então avaliar as diferenças entre os processos produtivos?

Com esses cinco parâmetros, começamos a verificar as diferenças entre os processos produtivos. Pode-se avaliar se o fabricante que possui equipamento que proporciona menor consumo de cimento, por exemplo, tem impacto ambiental e consumo de matérias-primas também favorável. E as questões de logística: como o fabricante compra cimento, pois é comum o industrial que diz “eu compro CPIII e estou sendo sustentável”; isto é relativo.

Se esse cimento vem de 300 km da fábrica, seria mais viável de repente comprar CPV, que está a 50 km e tem consumo menor do que o CPIII. Começamos então a adicionar números, dados objetivos, a algo que era bastante empírico. Queremos mostrar, com essa avaliação, o que realmente é mais sustentável. Buscamos sair do discurso genérico que apregoa que, com uma determinada prática, o produto é mais sustentável. Queremos aferir isso de forma mais científica, com os indicadores. E, com esses parâmetros, é possível comparar os índices entre os fabricantes do mesmo segmento e, também, com os dos produtos concorrentes. E aferir, por exemplo, se o bloco de concreto tem maior ou menor impacto ambiental do que o bloco cerâmico. Em relação à indústria de blocos cerâmicos, não é possível dizer quais são os índices reais de impacto ambiental. Pode ser que constatemos que, em 90% dos casos, o setor de blocos de concreto seja melhor do que o bloco cerâmico, que hoje pega a melhor classificação dele e compara com os concorrentes. Essa é uma comparação em bases falsas.

Essa Avaliação de Ciclo de Vida Modular permitirá criar parâmetros reais, em grande escala, então?

Exato. E assim, criamos parâmetros de comparação, porque sempre vamos medir os mesmos indicadores da mesma maneira. E, quando temos indicadores, abre-se a possibilidade para criarmos situação de melhorias, que vão resultar em redução de custos de produção. Não é simplesmente criar um indicador para mostrar que esse setor, ou parte dele, é mais sustentável. Serve também para aumentar a competitividade setorial. Se conseguirmos criar condições para os fabricantes reduzirem o consumo de energia, de matérias-primas, de insumos, de água, de diminuir a geração de resíduos, estaremos nos tornando mais competitivos no mercado.

Por que a escolha do setor de blocos para iniciar essa avaliação?

A escolha foi devido à importância do produto em si, que é utilizado em escala nacional e temos hoje um número grande de fabricantes de todos os portes espalhados pelo país e porque acreditamos que esse é um setor que tem oportunidades de melhorias significativas. A ideia é estender esse projeto para outros segmentos, como os de tubos, telhas e artefatos de concreto, por exemplo.

Esses índices serão um diferencial competitivo no mercado?

Sem dúvida. Da mesma maneira que, no passado, procurávamos mostrar aos fabricantes a importância de cumprir norma técnica, num segundo momento, a importância de ter uma certificação de qualidade, com a criação do Selo de Qualidade da ABCP, agora estamos em outro patamar, que é o de discutir qual é o impacto ambiental desses produtos. Cada vez mais, o mercado vai reconhecer o fabricante que tem boas práticas de produção.

Qual é a previsão de término desse projeto com os fabricantes de blocos e pisos intertravados de concreto?

A meta é concluir essa avaliação até o final de 2013, quando teremos finalizados as auditorias, em parceria com o Senai/RJ, que tem uma divisão da área ambiental e cujos auditores farão essas pesquisas com os fabricantes. Nem a BlocoBrasil, nem a ABCP terão acesso aos dados individuais dos fabricantes. Cada fabricante receberá seus números e poderá verificar, regional e nacionalmente, como está posicionado. Ele poderá analisar se tem a melhor prática do setor e em que pontos ele precisa melhorar. E o setor como um todo receberá a informação macro. A informação individual quem terá é somente o fabricante, a quem caberá, a seu critério, fornecê-lo à construtora ou divulgá-lo ao mercado. Evidentemente, os fabricantes que estiverem melhor posicionados em relação aos números globais do setor, certamente poderão utilizar esses dados para fazer o seu marketing para o mercado. E nosso objetivo central é induzir o setor a criar melhorias, porque essa avaliação cria uma competição para que cada um persiga o objetivo de ser reconhecido entre os melhores em relação aos seus concorrentes, do mesmo setor e de produtos que competem com ele.

"SE CONSEGUIRMOS CRIAR CONDIÇÕES PARA OS FABRICANTES REDUZIREM O CONSUMO DE ENERGIA, DE MATÉRIAS-PRIMAS, DE INSUMOS, DE ÁGUA, DE DIMINUIR A GERAÇÃO DE RESÍDUOS, ESTAREMOS NOS TORNANDO MAIS COMPETITIVOS NO MERCADO"

Além desses, quais são os outros benefícios desse projeto?

Esse projeto também serve para mostrar a transparência do setor de blocos e pisos intertravados de concreto e a disposição de promover melhorias de seus índices ambientais, se os resultados não forem tão favoráveis, e de processos produtivos e de gestão. E o número de participantes, 44 dos associados da BlocoBrasil, é bastante significativo, até porque são empresas formalizadas e reconhecidas no mercado, que já detêm o Selo de Qualidade da ABCP, condição indispensável para ser associado à BlocoBrasil, e que mostram a preocupação em conhecer seus índices e, quando for o caso, em melhorá-los. Também os fabricantes de cimento entenderam a importância de apoiar esse projeto. E este será um diferencial muito grande para os fabricantes de blocos mais bem posicionados, porque, especialmente nos mercados mais competitivos, que envolvem as grandes construtoras, isso será exigido. E o CBCS conversa bastante com as construtoras, com os Sinduscons e, a partir do momento em que o produto está sendo avaliado por uma entidade importante e reconhecido como o CBCS, a construtora saberá que este é um processo sério e que há uma metodologia estudada rigorosamente por trás dele.